Max Dias
Historiador, jornalista, professor do IFES Campus Linhares e doutorando do PPGHIS-UFES

Ditadura nunca mais!

Colunistas - 31 de março de 2021
Max Dias

O 31 de março é uma data em litígio. Se por um lado a história o consagrou como o dia em que os militares golpearam o Estado e impuseram sobre o povo uma ditadura de 21 anos, por outro os militares seguem afirmando que salvaram a democracia afastando o espectro comunista dessa terra, estabelecendo um “regime democrático de força”.

Essa confusão em torno do 31 de março traz consigo outra problemática, a da Anistia de 1979. Tal lei é mais um episódio daquele memorável seriado “um grande acordo nacional com Supremo e com tudo”. Os defensores dos direitos humanos lutaram, à época, por uma legislação que investigasse e punisse os crimes de Estado, o que foi duramente combatido pelos militares. O retorno de muitos exilados, outrora condenados por crimes políticos, coincidiu, assim, com uma tese vitoriosa vinda do quartel: anistiemos para esquecermos tudo! O processo de abertura em curso carregou consigo a insígnia dessa conciliação e seguiu assim até a vitória de Tancredo Neves no Colégio Eleitoral de 1985.

Os militares, sempre temerosos com o “revanchismo”, combateram o trabalho da Comissão Nacional da Verdade (2012 – 2014) no governo Dilma Rousseff (PT), uma ex-guerrilheira que fora torturada pelos militares. Esse instante é considerado um marco do ressurgimento das Forças Armadas no cenário político e tal politização coincidiu com um relatório consistente da CNV, defendendo justiça e verdade ao que fora encoberto pela anistia. A resposta dos militares não tardou e, poucos anos após isso, eles voltam à cena com Bolsonaro e seu governo loteado por comandantes do alto escalão. Porém, hoje, a relação nas Forças Armadas parece estar abalada. Mas só parece.

Na verdade, a repentina troca de comando no Ministério da Defesa e nas chefias das Forças Armadas dessa semana (em meio às “comemorações” do golpe) colocou o noticiário em polvorosa como se algo de muito grave estivesse por ocorrer (como se a gravidade não estivesse em curso desde 2018…). Jair Bolsonaro é político de longa data, o macaco velho que não bota a mão em cumbuca. Suas mexidas e discursos são todos para esmerilhar a democracia, como sempre. Mas prefere garantir a sua permanência no poder em 2022 por meio do voto, até porque legitima a sua necropolítica. Se perder, aí o enredo muda. Assim como num impeachment.

A substituição de alguns militares por outros, numa conjuntura tensa, faz lembrar a jogada de Ernesto Geisel contra o Ministro do Exército, general Silvio Frota. Afastado, o pré-candidato à ditador da vez seguiu acusando Geisel de ser um traidor da “Revolução de 1964”. Agora, os que saem da barca bolsonarista externam também alguma insatisfação. Mas, não é porque o sujeito desceu antes da parada final que ele não andou no ônibus. Fernando Azevedo e Silva, Edson Leal Pujol, Ilques Barbosa e Antônio Carlos Bermudez são todos eles cúmplices desse governo e das famigeradas celebrações em torno do 31 de março.