Max Dias
Historiador, jornalista, professor do IFES Campus Linhares e doutorando do PPGHIS-UFES

A terceira via para 2022

Colunistas - 7 de abril de 2021
Max Dias

Há espaço para uma terceira via nas próximas eleições presidenciais? Essa pergunta tem sido feita à exaustão desde o mês passado, com o retorno de Lula ao cenário político. Mas o cálculo eleitoral passa por pesquisas as mais diversas (enquanto um retrato de ocasião), por conjecturas difíceis de serem medidas agora e também pelo posicionamento do discurso dessa terceira via na arena pública. A tarefa não é nada simples. Se os reflexos socioeconômicos da covid-19 se mantiverem em alta no ano que vem, a reeleição de Bolsonaro fica mais difícil, por outro lado, qualquer revés judicial pode colocar o ex-presidente Lula para escanteio. Ambos os cenários possibilitariam a emersão da terceira via, no entanto, são possibilidades remotas.

O jogo a ser disputado pela terceira via envolve especialmente a construção de um discurso “alternativo”. A primeira tentativa ocorreu na semana passada quando alguns presidenciáveis se uniram em razão de um Manifesto. Foram poucos parágrafos, assinados por Ciro Gomes (PDT), Eduardo Leite (PSDB), João Amoedo (NOVO), Luiz Henrique Mandetta (DEM), João Doria (PSDB) e pelo apresentador Luciano Huck. De clarividente ali só mesmo a defesa inconteste da democracia. Mas, quem em sã consciência tem militado contra o sistema democrático, fora Bolsonaro?

Parece usual, a essa altura do campeonato, presidenciáveis fazerem críticas a um presidente no cargo e, na atual conjuntura, é até louvável quando dizem o óbvio acerca do Estado de direito. Porém, falta eles dizerem o que mudou (fora a péssima gestão da pandemia) de 2018 para cá porque cinco dos seis signatários dessa carta estiveram no palanque do então candidato do PSL. Estão frustrados com a timidez na pauta das privatizações? Querem mais reformas? Qual programa político une esse grupo? A terceira via é o Paulo Guedes sem Bolsonaro?

Para que esse grupo chegue à vitória em 2022 será preciso muito mais que motivar os milhões de eleitores que tem se abstido de votar a cada pleito. É necessário posicionar o discurso num espectro onde haja real possibilidade de crescer eleitoralmente. Isso coloca dúvidas sobre o programa a ser construído por essas seis mãos, pois Ciro, aparentemente, estaria deslocado nesse tabuleiro com o seu “nacional-desenvolvimentismo”. Talvez ele, no meio dos outros cinco, esteja mesmo é valorizando o passe assinando um documento cabal. É algo a ser conferido na sequência.

No fundo é o retorno de Lula à cena pública a única novidade que os motiva e isso é muito pouco para uma terceira via eleitoral (taí o fenômeno Marina Silva para não me deixar mentir sozinho). Se em 2018 esses sujeitos queriam vencer o PT e conseguiram, precisam dizer agora porque pretendem derrotar o Bolsonaro que outrora apoiaram. Dizer que não conheciam o DNA autoritário do político Jair Bolsonaro ou que a faixa presidencial faria do tirano um republicano não resolve. Não cabem aqui os enredos saídos dos livros de J.K Rowling.

Por hora, esses presidenciáveis reiteram a necessidade de pacificação do país, sinalizando, na melhor tradição brasileira, que a polarização é um mal e a conciliação é o caminho. No manifesto está escrito que o resultado das Diretas Já teria sido a união de “diferentes forças políticas no mesmo palanque” o que “possibilitou a eleição de Tancredo Neves para a Presidência da República”. No fundo “esquecem” que o povo lotou as ruas a fim de escolher livremente o seu presidente, o que foi impedido pela união das diferentes forças políticas no Congresso. Foi a conciliação pelo alto a responsável pelo cortejo fúnebre da emenda Dante de Oliveira.