
Max Dias
Historiador, jornalista, professor do IFES Campus Linhares e Doutor em História
Publicado por: Max Dias Em: Política No dia: 3 de setembro de 2021
Apesar de toda a preocupação evidenciada nos jornais e entre parcela das lideranças políticas, o presidente tende a fazer do Dia da Independência um pastiche, bem na linha de Pedro Américo. Em plena luz do dia nós não veremos um golpe clássico, mas veremos muitos gritos e armas na cintura, e isso, futuramente, pode se tornar um óleo sobre tela.
Para quem não se recorda da famosa obra (uma alegoria pintada mais de 60 anos após o ocorrido), ela traz D. Pedro I cercado por uma comitiva às margens do Rio Ipiranga, com a espada em riste, proclamando a liberdade do Brasil sob o olhar absorto de alguns transeuntes. Com esse suposto gesto pretendia-se livrar o Brasil de Portugal e inaugurar um tempo novo para o país. E desse modo, entre gritos, pessoas e cavalos, os rompantes de Bolsonaro na Avenida Paulista pretendem consagrar, entre os seus eleitores fiéis e demais neófitos, a imagem do líder compenetrado e disposto a batalhar pelo país. Tudo isso sob o olhar obsequioso dos demais chefes dos poderes republicanos.
A construção dessa imagem é essencial, pois o que Jair Bolsonaro busca com as mobilizações em torno do 7 de setembro é, por fim, agitar a militância. E para que essa agitação tenha êxito será necessário desenterrar todos os esqueletos do puritanismo religioso, do colonialismo e da ditadura militar em faixas com dizeres absurdos, cartazes com glitter em verde-amarelo, bandanas no estilo headbanger revolts do século XXI. A cena a ser pintada para a posteridade é essa. A verdade por detrás da tinta nós conhecemos bem.
Esse mise em scene, necessariamente, garante que o presidente, mesmo desidratado, tenha forças para chegar ao segundo turno em 2022. Afinal, política não se faz apenas com uma vitória eleitoral. A derrota também pode ser uma salvaguarda para o dia seguinte, especialmente se essa derrota vier acompanhada de uma militância retroalimentada pela raiva e pelas armas. Assim, o perigo seguirá rondando o país até o final de 2022 e o novo quadro “Independência ou Morte” (versão 7 de setembro de 2021) dependerá muito mais de como Bolsonaro e o seu séquito se comportarão após o dia 30 de outubro de 2022 (quando as urnas eletrônicas revelarem o resultado final) do que na próxima terça-feira.
