
Max Dias
Historiador, jornalista, professor do IFES Campus Linhares e Doutor em História
Publicado por: Max Dias Em: Política No dia: 3 de março de 2021

A resposta do governo Bolsonaro à pandemia foi desastrosa não apenas do ponto de vista sanitário, mas também do econômico. Em 2020 o PIB brasileiro teve uma contração de 4,1%. É o maior recuo em 30 anos. Apesar disso setores empresariais brasileiros se dividem na análise dos dados, sob a analogia do copo meio cheio e meio vazio. Para alguns, o auxílio emergencial serviu como estímulo, para outros faltaram maiores isenções em setores como o de serviços – um dos grandes penalizados com a pandemia.
O que não tem faltado nessa ocasião são críticas a Paulo Guedes, vindas agora, também, de segmentos que lhe davam sustentação para a empreitada liberalizante. Tendo virado vidraça, ao invés de seguir sua defesa intransigente dos modelos econômicos aprendidos na Escola de Chicago, segue agora com o único objetivo de acabar com a carreira pública do executivo federal. Todo o intervencionismo do seu chefe, Jair Bolsonaro, é tratado com parcimônia pelo “posto Ipiranga”. O antigo conselheiro é, nesse instante, aconselhado.
Paulo Guedes, um ministro que se via como o grande mentor da virada liberal na economia brasileira, é menos refém das suas bibliografias do que das conjunturas políticas e internacionais. Não por acaso, o liberalismo que ele acredita ser o certo só existe nas estantes das muitas bibliotecas mundo a fora. “Na prática a teoria é outra” já diria o poeta. O ministro da economia já flertou com a ditadura nas suas falas assim como o prestigiado Friedrich Hayek (1899-1992) o fez quando visitou o Chile de Pinochet. Hoje ele tem se esmerado em abrir a boca o mínimo possível, mantendo, segundo ele, suas opiniões apenas perante o presidente. Imaginem esses dois conversando sobre democracia…
A intervenção recente na Petrobrás, por exemplo, mostra o quanto o projeto econômico liberal, supostamente vencedor das urnas, está longe de se concretizar em plenitude com Jair Bolsonaro. Além disso, a precarização e desmonte em muitos setores do Estado tem mais de inépcia que de gestão. Alguns podem até dizer que isso é um projeto e tendo a concordar, em termos. Entretanto, se o interesse é vender a preço de banana o sucateado, esse projeto de liberalismo é apenas mais um sofisma para o já batido entreguismo. E isso precisa ser denunciado como mais um estelionato eleitoral da candidatura Jair Bolsonaro, assim como o uso do velho expediente “aos amigos tudo, aos inimigos a PEC”. Isso também não é liberalismo, mas represália.
Mesmo que a pandemia seja uma boa bengala para explicar todos os insucessos privatistas (ou mesmo o atraso governista para a montagem de uma autêntica correlação de forças no Congresso capaz de garantir a aprovação em massa de propostas) é fato que uma guinada econômica já está sendo processada para 2022. Até lá o governo não vai entregar ao mercado financeiro tudo o que prometeu, mas nem por isso vai deixar de entregar. Paulo Guedes já sabe disso. O presidente já o avisou. O liberalismo econômico dura enquanto durar a ignorância dos outros.

