
Max Dias
Historiador, jornalista, professor do IFES Campus Linhares e Doutor em História
Publicado por: Max Dias Em: Sem categoria No dia: 22 de julho de 2021
Quando as instituições estão funcionando plenamente propostas como a de um semipresidencialismo não passam de discursos enfadonhos, como reprise de filme ruim na “Sessão da Tarde”. Entretanto, quando uma República está em crise, alternativas políticas mirabolantes para o país surgem como coelhos saídos da cartola. O velho repertório da aristocracia brasileira, que se assenta no legislativo desde os tempos coloniais, não transmite confiança, apesar de fazer muito barulho. E tem seus adeptos, infelizmente. Retroalimentam a crise disfarçada de democracia.
Não espanta que nesse tempo o presidente da Câmara exponha publicamente tal ideia. Ela, na prática, tem dois efeitos imediatos. Ambos dialogam somente com a classe política e, em nada, dizem respeito ao cidadão brasileiro. O recado ressoa tanto no Planalto quanto em São Bernardo do Campo e procura redesenhar forças já para as eleições de 2022 por mais que o projeto aponte para 2026. Quer dizer, os congressistas querem maior espaço na agenda do executivo. Aquele velho museu de grandes novidades.
Na história brasileira nós temos um exemplo desse tipo de esparrela travestida de salvação e ocorreu às vésperas do golpe militar. Na ocasião, o país foi agraciado com um sistema parlamentarista para que Jango não assumisse o cargo que lhe era de direito. Sobre o então vice-presidente pairava a pecha de comunista. Consultado em 1963, o povo votou pelo retorno do presidencialismo. Ganhou, tempos depois, uma ditadura, fruto da mesquinharia e das artimanhas da carcomida classe política nacional.
Voltando ao semipresidencialismo, se por um lado nossos parlamentares cumprem com pouco esmero a função de fiscalizar o presidente, por outro, a cada sopro de crise, seus dentes avançam para abocanhar mais uma fatia do bolo ministerial e orçamentário. Quase todos querem ser governo (o tempo todo). Há muitos partidos e poucas ideologias. Um acinte.
A crise, para essa classe política, é o bônus de um mal enjambrado presidencialismo de coalisão. Para nós é o ônus de um sistema político que ainda precisa de depuração. Porém, a proposta de Artur Lira vem para consolidar a velharia e não sanar a República. Por isso precisa ser rejeitada pelos quatro cantos de Pindorama. Se em algum instante a democracia prevalecer sobre as vontades de tirania em voga nesse país, discutir sistemas políticos mais coerentes com a nossa realidade podem ajudar a conter os capitães de primeira viagem.

