Max Dias
Historiador, jornalista, professor do IFES Campus Linhares e Doutor em História

O centrão: a salvação do capitão


Publicado por: Max Dias Em: Política No dia: 29 de julho de 2021


Do ponto de vista eleitoral, a chegada de Ciro Nogueira (PP-PI) para ocupar o Ministério da Casa Civil é uma daquelas tacadas de Jair Bolsonaro que pode colocar a oposição na sinuca. Ciro Nogueira não tende a revolucionar a gestão pública do combalido presidente, mas pode trazer novo gás para a reeleição. Falando assim parece simples, todavia esse jogo tem duas faces distintas e um caminho sem volta.

Investigado por corrupção em dois inquéritos envolvendo a Petrobrás, Ciro Nogueira conhece as articulações de Brasília como ninguém. Sabe onde o calo do governo aperta e, por essa habilidade, vai ser o podólogo da vez. Quase todo o centrão quer, em definitivo, a chave do cofre para destravar orçamentos e abastecer os seus currais. Como já dito em colunas passadas, uma eleição inaugura a outra, mesmo que a conta da anterior ainda não tenha sido paga por completo. O fisiologismo do centrão é fruto dessa eterna avidez por recursos para alimentar suas bases de campanha. É o toma lá dá cá em sua essência.

Ao mesmo tempo, o próprio Bolsonaro já disse que é do centrão. Quem conhece a trajetória errática do deputado federal que fora expulso do exército sabe bem que, dessa vez, o Jair não mentiu. Apesar do braço direito do presidente, general Augusto Heleno, ter cantado “se gritar pega centrão não fica um, meu irmão…” é fato que no DNA desse governo circula o que há de pior em genética política. No entanto, aquartelado em 25% de intenções de voto (e assim deve permanecer, porque “pior que tá não fica”), Jair Bolsonaro tende a ganhar boa margem eleitoral para tentar vencer o ex-presidente Lula em 2022.

Em meio a estes dois cenários, fica a dúvida sobre o caminho definitivo a ser percorrido. Quer dizer: sendo refém do maior grupo fisiologista de Brasília, é possível ganhar uma eleição presidencial? Ao amarrar os cargos e orçamentos com o centrão, existe garantia de que os mesmos caminhem com Bolsonaro em seus municípios? E se a chance do político A ou B do centrão vencer no seu Estado depender da construção de um palanque com Lula? Quem, no fim das contas, vai se manter nessa barca se ela seguir fazendo água a cada denúncia de corrupção envolvendo compra de vacinas?

A aposta final que Jair Bolsonaro fez no centrão é um ato desesperado para evitar a revoada no Congresso. Para acomodar novos aliados e desafetos, até novo ministério foi criado, o que contraria suas próprias promessas de campanha. Ciro Nogueira, que não é menino, já tinha sua irmã encostada em uma dessas repartições bolsonaristas com um salário de quase 20 mil reais e agora terá a sua mãe no Senado, ocupando a vaga que era sua. Só não há dúvida que o Natal da família Nogueira vai ser animado.




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