Max Dias
Historiador, jornalista, professor do IFES Campus Linhares e Doutor em História

O Brasil na máquina do tempo


Publicado por: Max Dias Em: Política No dia: 26 de novembro de 2021


Não passou despercebido pelo universo político a filiação do general Santos Cruz ao Podemos. O partido que, nesse mês de novembro, havia filiado o ex-juiz Sérgio Moro para, possivelmente, liderar uma chapa à presidência da República em 2022 traz agora para o centro das atenções mais um personagem que até ontem estava na base de apoio do presidente Jair Bolsonaro. Já conversamos nessa coluna em outras ocasiões o quão sintomático é o crescimento dos militares na política. Agora, com Santos Cruz, tal conversa joga ainda mais luz sobre o perigoso tempo em que nós vivemos. O horizonte é retrocesso.

Houve uma época em nossa República que as candidaturas militares faziam parte do cenário eleitoral, tornando as disputas presidenciais verdadeiros barris de pólvora. Não por acaso, tão logo saímos de uma ditadura entramos em outra. Após o Estado Novo de Vargas o brigadeiro Eduardo Gomes crescia como importante articulador dos interesses ideológicos da UDN, mas foi candidato derrotado em duas ocasiões, uma delas para o também general Eurico Dutra (PSD).

Em razão de sua forte oposição ao trabalhismo, os udenistas criavam muitíssimos factoides e interpretações constitucionais peculiares para questionar as sucessivas derrotas nas urnas. O general Juarez Távora (UDN) foi um desses personagens que também perdeu na urna, mas quis levar na “mão grande”. O clima de tensão que se elevaria a partir do suicídio de Vargas em 1954 acabou por mobilizar outros personagens militares na linha contrária aos udenistas. Destaque para o Marechal Henrique Lott, que inclusive concorreria à presidência da República em 1960 contra Jânio Quadros e seria derrotado. Apesar de defensor inconteste da constituição, sua posição de liderança não seria páreo para a hegemonia que se formou nas Forças Armadas. A ruptura gracejou em 1961 e se confirmou em 1964. Foi a militarização da democracia que nos levou novamente à uma ditadura.

Na prática, apesar de serem sócios de toda a crescente autoritária e da recessão econômica que temos experimentado desde 2018, Moro e Santos Cruz tendem a se comportar no próximo pleito enquanto defensores da normalização constitucional e do equilíbrio entre os poderes. Haverão de acusar Bolsonaro e Mourão de terem negado os princípios norteadores da purificação nacional, abraçando o centrão, ampliando a compra de votos no Congresso e “desmoralizando” a política. Se a dobradinha puro-sangue realmente for concretizada teremos um 2022 bastante agitado na caserna.

O Brasil dos militares na política parece apontar uns 70 anos para trás, para um futuro que repete o passado, conforme nos alertou Cazuza.




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