Max Dias
Historiador, jornalista, professor do IFES Campus Linhares e doutorando do PPGHIS-UFES

O 2020 que inaugura o 2022

Sem categoria - 16 de novembro de 2020
Max Dias

Após o fechamento do primeiro turno das eleições um cenário que é pintado por toda a grande mídia é a derrota do presidente Jair Bolsonaro. Talvez o impacto da vitória de Joe Biden nos Estados Unidos tenha feito todos olharem as eleições municipais brasileiras como uma espécie de teste perfeito para o enfraquecimento do bolsonarismo. O mapa eleitoral a partir das capitais apresenta um cenário de guinada para a centro-direita (com uma recuperação de setores renovados da esquerda), mas é preciso ter a devida dose de prudência para enxergar tais números e sacramentar em definitivo a derrota do atual presidente.

Na prática Jair Bolsonaro tem operado uma mudança silenciosa dentro do seu governo. Silenciosa mesmo, pois não pretende deixar órfãos os segmentos mais radicais e barulhentos ainda em atividade. Por outro lado, o aceno ao centrão nos últimos meses que antecederam ao pleito municipal tem como objetivo orientar a cena para 2022. Ao que tudo indica, e após a abertura das urnas deste domingo, o próximo Bolsonaro será um legítimo representante do carreirismo político brasileiro, aquilo que ele sempre foi de verdade, afinal, nenhum sujeito com quase trinta anos como deputado federal pode advogar-se enquanto outsider. Mas no seu caso colou e o eleitorado comprou. Todavia, a medida em que a órbita política gira ele vai junto e tudo isso ficará mais nítido agora, quando o país começa a se preparar para mais uma eleição presidencial.

Ainda restam capitais importantes com segundo turno e na maior delas, São Paulo, ou cresce a centro-direita com o PSDB ou o PSOL surpreende a todos (todas e todes), e carimba a maior metrópole do Brasil com a marca da esquerda. Muitos acreditam que Guilherme Boulos é uma espécie de Lula 2.0. Na estética e no carisma ele aparenta ser mesmo um Luis Inácio da Silva do presente, personificação de um país que se transformou deixando o sindicalismo de fábrica num entreato da história. Boulos avançou num campo onde Jilmar Tatto não conseguiu ser nem a sombra do que foram as candidaturas petistas das últimas décadas. Sua saída precoce no primeiro turno coloca o PT em um processo duro de reflexão onde lançadores de pedra e recolhedores de cacos terão papel protagonista.

Por outro lado, uma eleição de Guilherme Boulos na capital paulista faria com que o exercício da esquerda para 2022 se tornasse ainda mais complexo no que tange às composições para a cabeça de chapa, já que a centro-direita nas mãos de Rodrigo Maia (DEM), João Dória (PSDB), além dos animadores de auditório Luciano Huck e Sérgio Moro, teriam aparelhos municipais o suficiente para tentar reconquistar a presidência num amplo acordo envolvendo setores empresariais e jurídicos brasileiros. A quem caberia o papel nacional de liderar a esquerda?

Por fim, Jair Bolsonaro não está morto em um cenário como esse, apesar de baqueado. As margens para as suas bravatas se diluem, no entanto, o seu histórico permite que o capitão vire camaleão porque a corrida eleitoral no Brasil é por etapas e 2020 pode servir para ele como uma pausa para descanso e hidratação. O PT parece ainda mais cansado, porém preservou Fernando Haddad de ser vidraça por agora pensando adiante. Do mesmo modo agiu Ciro, apesar do seu PDT ter ampliado o leque de possibilidades eleitorais para 2022. Resta saber se haverá espaço nessa régua ideológica para todo mundo e de que maneira o eleitor vai enxergar cada uma dessas candidaturas.

Ontem, o vice-presidente Hamilton Mourão pontuou que o presidente não saiu derrotado porque ele nem se envolveu nas querelas municipais. Esse aparente republicanismo vai ser passado a limpo pelo tempo. Nem sempre a fala de um general livra a barra de um capitão.

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