Max Dias
Historiador, jornalista, professor do IFES Campus Linhares e Doutor em História

Lula, o enxadrista do Nordeste


Publicado por: Max Dias Em: Política No dia: 19 de agosto de 2021


A viagem de Lula para a região Nordeste acontece em um momento muito adverso para o presidente Jair Bolsonaro na corrida eleitoral de 2022. E as pesquisas comprovam isso. Se a economia continua patinando e o governo corre contra o tempo para cumprir a sua agenda privatista em agrado ao mercado financeiro, Lula aproveita o tempo livre para construir toda a sorte de articulações políticas que, de algum modo, o cacifam para liderar a composição regional nas eleições do ano que vem. Muitos dos governadores do Nordeste são de um campo político mais à esquerda, outros tantos políticos da região ocuparam cargos nos governos Lula/Dilma e a pandemia, por fim, só fez afastá-los ainda mais do governo Bolsonaro.

Como já fora dito outras vezes aqui na coluna, o rito político do Congresso em Brasília não se restringe à capital federal. Pelo contrário, o que ocorre lá é um preparativo para as disputas que ocorrem cá, nos Estados. E em 2022 tem muito senador e deputado federal que está de olho é na cadeira do executivo estadual. Lula sabe bem disso. Bolsonaro também.

Peguemos o caso do Piauí como exemplo, pois, não por acaso, a “bisca” do atual presidente atende pelo nome de Ciro Nogueira (PP). Piauiense, Nogueira tem interesses específicos na região e sua pré-candidatura a governador está posta mesmo antes dele assumir o ministério da Casa Civil. Com o cargo ofertado a Nogueira, Bolsonaro espera cessar alguns conflitos no Senado, profissionalizar a articulação política e cortejar o máximo de parceiros nordestinos para 2022. Não é tarefa fácil já que, dizem, a pré-candidatura do espertíssimo Nogueira o coloca instantaneamente com um pé dentro e outro fora do governo. Tudo vai depender do balanço das marés.

Lula, por outro lado, tem apostado nas defecções do PP de Ciro Nogueira. O atual governador do Piauí, o petista Wellington Dias, está prestes a encerrar o seu segundo mandato e, conforme o rito, tentará uma vaga para o Senado. Nesse contexto, as várias pré-candidaturas a governador nesse território parecem favorecer mais a um Lula (e sua capacidade de limpar o terreno) que a um Bolsonaro (com sua infinita habilidade em repelir possíveis aliados).

Mesmo assim, é importante destacar: Bolsonaro tem a máquina nas mãos e o seu esforço para aparelhar os cargos em favor de novos parceiros não o tiram da briga, pelo contrário, o fortalece. A disputa tenderá a ser acirrada em todo o Brasil. No Nordeste não será diferente, apesar de hoje as pesquisas e os cargos eleitorais em disputa favorecerem mais ao ex-presidente que o atual.

No Piauí, as articulações estão ocorrendo tal qual em outros estados da região nordestina e haverão de adentrar 2022. Para o PT, vencer no Nordeste é a certeza de que o nome de Lula seguirá na disputa, com reais chances de vitória num segundo turno. Já para Bolsonaro perder no Nordeste pode configurar um teto intransponível, pondo fim nas suas chances de reeleição.




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