Folia na avenida?


Em: Variedades No dia: 14 de julho de 2020


Foi o carnaval da revanche depois da peste quase dizimar a cidade e o Brasil. Em 1919, os foliões invadiram as ruas do Rio, comemoraram a vitória sobre a morte e, entre confetes, serpentinas e lança-perfume, cantaram uma das marchinhas mais célebres da época: “Não há tristeza que possa suportar tanta alegria/ Quem não morreu da espanhola/ Quem dela pôde escapar/ Não dá mais tratos à bola/ Toca a rir, toca a brincar…” Era o primeiro carnaval após a gripe espanhola, responsável pela (então) maior crise sanitária da história do Rio, que devastou 15 mil vidas só ali. Mais de 100 anos depois, as memórias de 1919 serão resgatadas no próximo carnaval – data a ser confirmada -, na Marquês de Sapucaí, pela atual campeã da folia carioca, a Unidos do Viradouro. A escola de Niterói pretende fazer um paralelo: da mesma forma que os brasileiros derrotaram a gripe espanhola no século passado, hão de vencer agora a tal da covid-19. E, mais uma vez, vão celebrar a vida sob a batuta do Rei Momo.

“Tivemos muito cuidado com a escolha do enredo, sabendo que é um ano delicado. Vimos algumas reportagens de como a população deu continuidade à vida perante a gripe espanhola, falando justamente do carnaval de 1919, como foi a felicidade irradiada no Rio e o primeiro encontro das pessoas após a doença”, diz o carnavalesco Marcus Ferreira. “O carnaval sempre será um remédio para as mazelas de um ano inteiro do nosso povo. Assim que isso tudo passar, temos a certeza que o povo irá reviver o carnaval de 1919, com a mesma intensidade, alegria e leveza. Este próximo carnaval vai ser de virada de página para a humanidade.”

Pelo segundo ano consecutivo, Ferreira assina o desfile da Viradouro ao lado do marido, Tarcísio Zanon. Os dois estão confinados em casa e, de certa forma, o distanciamento social imposto pela quarentena ajudou no processo criativo. Isolada, a dupla mantém uma rotina intensa de trabalho e reuniões com a equipe via Skype, Zoom, WhatsApp – e já desenhou todas as alas do desfile.

Enquanto as atividades no barracão permanecem paradas, os gestos de amparo foram multiplicados. Campeã atual da Avenida, e fora dela, a Viradouro mobilizou costureiras, doou tecidos que estavam no almoxarifado e distribuiu mais de 11 mil máscaras para componentes, moradores de comunidades do entorno na quadra, hospitais e abrigos de idosos. Também doou 400 cestas básicas para integrantes que passam por dificuldades.

Em São Paulo, além de fabricar máscaras e doar alimentos, a Vila Maria fechou parceria com a ONG GR Together para fazer testes rápidos de covid-19 para a sua comunidade de forma gratuita – as mil vagas já foram preenchidas, e uma lista de espera foi aberta. A ação faz parte de um projeto social da escola que inspirou o enredo para 2021: “O mundo precisa de cada um de nós”. “Vamos falar de coisas que a gente viveu, vive e viverá. É um enredo da alma”, disse o carnavalesco Cristiano Bara ao anunciar o enredo sobre solidariedade.

De volta para o Rio, na semana passada foi a vez de a Portela, a maior campeã da história (22 campeonatos), fazer uma live beneficente de mais de quatro horas que resultou na doação de mil unidades de álcool em gel, 250 quilos de tapioca, além de R$ 18,6 mil arrematados com o leilão de itens diversos, como uma réplica da bandeira portelense assinada por Marisa Monte. Samba não combina com distanciamento social: nesta época do ano, era para a Rua Clara Nunes estar recebendo as feijoadas mensais da Azul e Branco, um desses tradicionais eventos capazes de reunir até quatro mil pessoas e que geram receita para a águia altaneira.

Suspense

No momento, a dúvida que ronda a Sapucaí e o Anhembi é a mesma: vai ter carnaval em 2021? Por um triz, a festa não foi ameaçada neste ano – a Organização Mundial da Saúde (OMS) declarou a pandemia duas semanas depois da Quarta-Feira de Cinzas. “Ninguém sabe. O que tiver por aí é chute. Você não sabe hoje nem se pode ir ao cinema ou ir a um restaurante. É como se fosse subir uma escada: estamos subindo e lá em cima é o carnaval”, diz o presidente da Portela, Luiz Carlos Magalhães. “Estamos trabalhando como se o carnaval fosse em fevereiro, mas vai chegar o momento em que vamos precisar de dinheiro.”

Detentora dos direitos de transmissão dos desfiles de Carnaval do Rio e de São Paulo, a TV Globo ainda não iniciou o pagamento da verba repassada às escolas. Procurada pela reportagem, a emissora informou por nota que “aguarda a evolução da situação”. “A dúvida, neste momento, é se, por conta dos impactos da pandemia, haverá desfiles no ano que vem”, admite a Globo. Nos bastidores, não faltam especulações: adiar a festa por alguns meses, até para o inverno, em versão mais enxuta. Há quem tema o pior – cancelar o evento até 2022.

Uma reunião da Liga Independente das Escolas de Samba do Rio (Liesa) para discutir o tema foi adiada, em virtude da morte do bicheiro Luizinho Drummond, patrono da Imperatriz Leopoldinense – vítima de um AVC. Procurada, a Liesa não se manifestou. A Liga de São Paulo, por sua vez, informou que, com a TV Globo, estuda e planeja “os próximos passos do Carnaval paulistano em conjunto, com o apoio da prefeitura”.

Na Mocidade Independente de Padre Miguel, a ordem é esperar uma definição oficial da Liesa para divulgar os detalhes do desfile – a escola vai para a avenida com o enredo Batuque ao caçador, em homenagem a Oxóssi, orixá reverenciado pela lendária bateria de Mestre André. O orixá da caça e das florestas se sincretiza no Rio de Janeiro na figura de São Sebastião, padroeiro da Mocidade e da capital fluminense. “É um tema com uma ligação histórica e cultural muito grande com a escola. A posição da Mocidade é guardar o enredo a sete chaves até a confirmação do carnaval, para não banalizá-lo”, diz o diretor de carnaval Marquinho Marino.

Marino é um dos rostos escondidos pelos números estatísticos da covid-19: foi infectado pelo novo coronavírus, teve de ir a Volta Redonda para conseguir se tratar, ficou 14 dias internado, mas passa bem. Pelo menos no papel, ele garante que o desfile da Mocidade está pronto: todas as alas e alegorias foram desenhadas.

Se Oxóssi é mantido sob sigilo absoluto em Padre Miguel, outras escolas já anunciaram mais detalhes dos seus enredos. O Salgueiro vai com o tema “resistência”, usando a cidade do Rio como cenário da luta de negros pela defesa de sua cultura.

Influenciada pelos protestos antirracistas que se espalharam pelo mundo, a Beija-Flor vai exaltar a intelectualidade negra com o enredo “Empretecer o pensamento é ouvir a voz da Beija-Flor”. Na Grande Rio, a homenagem é para Exu; na Vila Isabel, para Martinho da Vila. A Portela vai mostrar a simbologia dos baobás, as árvores milenares, gigantescas, com origens africanas.

O pesquisador de carnaval Fábio Fabato, autor da sinopse (uma espécie de roteiro do desfile) do enredo da Mocidade, aponta que, nascidas em locais humildes que não recebem grande apoio de governos, as escolas de samba negociam sua existência desde o começo.

“Em razão disso, na perspectiva de adesão ou crítica, década a década, refletem – nos enredos – a relação de ocasião com o poder público. No atual contexto, sem qualquer apoio financeiro da prefeitura do Rio e do governo federal, naturalmente, esses coletivos foram beber na própria força e identidade para seguirem adiante. O volume de enredos de natureza afro aponta uma linha voltada à descolonização. É uma resposta coletiva ao sofrimento das comunidades, ao racismo e ao desapreço dos atuais governantes pela festa e pelos saberes negros do carnaval.” Agora é aguardar 2021, ou 2022, para a nova revanche.

As informações são do jornal O Estado de S. Paulo.