
Max Dias
Historiador, jornalista, professor do IFES Campus Linhares e Doutor em História
Publicado por: Max Dias Em: Política No dia: 2 de fevereiro de 2021
A vitória de Arthur Lira (PP-AL) não é só uma vitória do presidente Jair Bolsonaro. Tampouco é somente uma derrota do ex-presidente da Câmara Rodrigo Maia (DEM-RJ). Na verdade, o retorno triunfante do centrão é a pá de cal sobre aqueles políticos tidos por articuladores nacionais, engenheiros principais do enterro de Dilma Rousseff em 2016 e, posteriormente, do próprio Eduardo Cunha, o coveiro.
Unidos em torno de um grande acordo nacional (com Supremo e com tudo), Temer, Maia e CIA planejaram uma empreitada econômica alcunhada de desestatizante, com reformas liberais nas mais diversas áreas, porém vão ver os mesmos pedreiros de sempre executando a obra em troca de uma boa quantidade de emenda$ parlamentare$, fazendo o serviço para quem manda na empreiteira. Bolsonaro sai mais forte dessa porque a política no Brasil é feita assim faz muito tempo e ele sabe disso porque fez (e faz) parte dessa construção. O discurso de campanha de 2018 foi apenas um discurso para os neófitos. Resta agora a realidade da política brasileira rumo a 2022: vencer a qualquer custo.
Na prática, a tal Realpolitik a partir da Câmara Federal é uma conta simples quando você olha para o crachá de cada um dos eleitos. Os perfis dos 513 deputados se assemelham nesse país de extensão continental porque Brasília é um ambiente hostil para os diferentes. Os corredores do Congresso Nacional fazem um sujeito com 100 mil votos parecer um assessor de gabinete (e nem adianta trocar o terno de defunto por um de corte italiano). Assim, quando chega a escuridão, os gatos pardos viram pretos. Trocando em miúdos: em meio a tanta gente querendo fazer política, grande parte ali não vai ter, em quatro anos, um minuto sequer de tribuna para contar anedota de salão. Sabendo disso, muitos eleitos só vão para Brasília porque querem voltar (é quase um purgatório!), afinal, conquistar uma cadeira na Câmara é o passo primeiro para se tornar prefeito e para isso as mão$ do presidente podem ajudar.
Pouquíssimos deputados têm zelo pela sua bancada partidária, no geral não possuem orientação ideológica clara e apostam o tempo todo na possibilidade de amealhar uma boquinha para o apaniguado de ocasião. Maia sabe disso, mas tentou acreditar que a fidelidade dos seus cupinchas perduraria ao menos até 2022 com seu “Tratado de Frente Ampla”. Ledo engano. Sem máquina financeira lhe restam os microfones da tribuna e das TV’s. Nada mais. É pouco para fazer um sucessor na Câmara e muito pouco para garantir uma unidade de toda a oposição contra Jair Bolsonaro.
Por fim, muito se tem dito sobre a fatura a ser paga pelo governo federal nessa eleição, se o Ministério da Economia vai abrir o cofre das emendas e dos cargos. Esse debate parece periférico por hora, porque torneira que pinga ou que jorra também sai água. A questão urgente e incontrolável nesse momento diz respeito ao Supremo Tribunal Federal e à Polícia Federal. Seus julgamentos e investigações, como sempre, podem levar a obra iniciada em 2016 (agora sob nova direção) à estaca zero novamente. Se a PF parece controlada, sob o silêncio dos seus delegados, o Supremo é sempre uma incógnita.

