
Max Dias
Historiador, jornalista, professor do IFES Campus Linhares e Doutor em História
Publicado por: Max Dias Em: Política No dia: 10 de março de 2021
Políticos não deveriam despertar ódio ou paixão. Esses sentimentos típicos de relações aproximadas deveriam servir apenas para o grande ou ex-amor da sua vida. Mas se nem no Big Brother Brasil (um programa de entretenimento!) a população dessa terra consegue se contentar em só assistir pela TV, imagina no caso da política, que afeta a todos o tempo inteiro. Confesso que eu prefiro essa grita toda, a cada nova canetada do STF, do que os indiferentes.
Quem vive de verdade e exerce sua cidadania toma partido, nos diria o filósofo Antonio Gramsci parafraseando Federico Hebbel, já que “a indiferença é o peso morto da história”. É por essas e outras que sinto uma certa repulsa quando um sujeito qualquer, cambaleando com o seu título de eleitor por essas nobres terras furtadas dos índios, chega na hora da eleição e declama a cantilena: “o meu partido é o Brasil”. Engana-se a si próprio e talvez o judiciário nacional, onde o jogo de cena virou rotina.
A novela política envolvendo o Lula parece ter ganhado ares novos no palco do teatro jurídico nacional onde os personagens ali atuam de forma primorosa, fazem acreditar ou duvidar o espectador a cada processo votado e, por fim, mudam a cada minuto aquilo que outrora diziam crer. A operação posta em prática pelo STF, iniciada mais precisamente na década passada, tem colocado mais peso sobre a democracia do que aliviado suas tensões.
Se os ministros dos tribunais superiores só perceberam agora a artimanha utilizada pelo ex-juiz Sérgio Moro no julgamento do ex-presidente Lula é por má-fé ou indiferença o que, por si só já sinaliza o grave problema a qual estamos submetidos. Deixo a má-fé de lado (dos ministros, não do Moro). Prefiro não alimentar teorias conspiratórias. Mas, e toda a pirotecnia, a falta de zelo com o rito jurídico e a velocidade para a condenação de Lula só não foram vistos por eles? Fora preciso que os vazamentos do site The Intercept salvassem o ex-presidente? Tudo isso só agora após Lula ter ficado 580 dias no cárcere? Não tem Boninho que sustente a narrativa e organize um bom desfecho para esse espetáculo criado pelos ministros. O que se arrasta a partir de agora é um drama cujas consequências não podem ser medidas. Não espantaria que uma outra espécie de general Villas Boas voltasse as suas retóricas novamente contra o Supremo Tribunal Federal. Porém a resposta dos ministros, agora, seriam outras? E como as Forças Armadas revidariam?
A verdade é que “o mal que recai sobre todos […] não se deve tanto à iniciativa dos poucos que agem, mas à indiferença […] de muitos”, eis o que nos revela a máxima gramsciana sobre as formas de se operar o poder político, travestido de justiça, tal qual encenaram a operação Lava Jato e o ex-herói Sérgio Moro.

