
Max Dias
Historiador, jornalista, professor do IFES Campus Linhares e Doutor em História
Publicado por: Max Dias Em: Política No dia: 1 de dezembro de 2021
A aprovação do nome de André Mendonça para o STF é um passo atrás na experiência republicana brasileira em sua diversidade. Se por um lado é preciso reforçar o quanto parcela do discurso religioso protestante, no alvorecer da República, mencionava a necessidade de “purificar” a nação enquanto surgia o novo sistema de governo é necessário registrar também que o pastor presbiteriano André Mendonça reza mais nos manuscritos do Messias de Vivendas da Barra que nas palavras do menino pobre nascido em Belém (por mais que a Bíblia pareça a mesma). E isso por si só já representa um problema, já que Mendonça estará ali para defender o indefensável.
Durante o período imperial, principalmente na segunda metade do reinado de D. Pedro II, cresceram os movimentos que visavam derrubar a monarquia brasileira, tida como retrógrada e um real empecilho para a inserção definitiva do Brasil no capitalismo internacional. Essa análise, sob premissas idênticas, era compartilhada tanto por setores liberais quanto por lideranças cristãs protestantes, conforme se pode notar no jornal A imprensa evangélica de 1864: “o desenvolvimento das verdades religiosas e a propagação das verdadeiras crenças [é] uma necessidade indeclinável de toda sociedade bem constituída e civilizada”.
Como se sabe a Monarquia brasileira tinha o catolicismo como religião oficial e muitos dos missionários protestantes que circulavam por aqui relatavam que o cristianismo local era degenerado, especialmente pelo sincretismo. Havia também a discriminação em relação aos grupos que mesclavam o cristianismo a ritos populares. Sob tal olhar ascético se estabeleceu uma forte relação entre os setores político-religiosos que buscavam se livrar do rei e aqueles que queriam “regenerar” essa população.
Tal postura, revigorada pelo republicanismo, ainda deixava para outro tempo o desejo latente de tomar o seu predestinado lugar na política nacional. Em uma fala ao cronista João do Rio, o então pastor João Manuel Gonçalves (Igreja Evangélica Fluminense) ressaltou: “a única religião compatível com a nossa República é exatamente o evangelismo cristão. Submete-se às leis, prega o casamento civil, obedece ao código e é, pela sua pureza, um esteio moral. Havemos de ter muito breve na representação nacional um deputado evangelista”.
Não só um deputado, mas os evangélicos passariam a ter toda uma bancada, tornando as igrejas verdadeiros espaços para se fazer proselitismo político, um grande curral para contabilidade de votos. Se no legislativo é até compreensível que bancadas se alinhem por interesses específicos e os debates ocorram considerando as diversidades nacionais, no judiciário é mais que urgente tocar a todo instante nas chagas de André Mendonça, para que ele entenda que as marcas trazidas por ele, agora, são todas relacionadas à Constituição de 1988.

