Max Dias
Historiador, jornalista, professor do IFES Campus Linhares e Doutor em História

A doença e o dia seguinte


Publicado por: Max Dias Em: Política No dia: 15 de julho de 2021


É comum o compadecimento de toda uma nação quando um líder da República adoece. O caso mais lembrado da nossa história recente gira em torno do presidente Tancredo Neves (PMDB), eleito em 1985. Naquele caso, a comoção dos cidadãos se misturou a uma interrogação pelo dia seguinte ao boletim médico derradeiro. A mídia atentava para o fato do vice, José Sarney, ter sido um civil que compusera as fileiras da ditadura enquanto líder da Arena/PDS. Apesar de ter rompido com o partido dos militares e ter se juntado a outros dissidentes no PMDB, todos sabiam que a sua estratégia envolvia muito mais o dia seguinte à ditadura (e a velha política de ocupação de cargos) que uma crença nos valores democráticos. Assim, nessa novela da vida real, o noticiário contribuía para criar um ar de suspense, tornando uma enfermidade individual em um adoecimento nacional, como se a plena restauração da democracia dependesse da vida de um e não da participação de todos.

Essa crise de um país em torno do adoecimento de uma liderança acometeu a ditadura em outras ocasiões. Foi assim com Artur da Costa e Silva. No segundo semestre de 1969 ele se afastou às pressas para tratamento de saúde. A fake news militar da época afirmava ser uma gripe. Idoso e sem histórico de atleta viria falecer ao final daquele ano. Uma enorme crise política se estabeleceu em razão do vice, o civil Pedro Aleixo. Golpeado pelas Forças Armadas, foi substituído por uma Junta Militar até a ascensão do general Emílio Médici.

Quando o último dos ditadores, general João Figueiredo, adoeceu em setembro de 1981, pairava uma dúvida se o filme Pedro Aleixo seria reprisado. Era um tempo de abertura política, mas também de forte crise social, econômica e de terrorismo militar. Apesar das pressões vindas de todos os quarteis, o rito foi mantido em favor do vice civil Aureliano Chaves, o que fora comemorado pela grande mídia como um indício de normalidade, fruto dos novos ares democráticos. Figueiredo reassumiu o posto, porém, as dúvidas acerca do dia seguinte à ditadura permaneciam com ele ou sem ele, tamanha a tensão que o país vivia.

A nova internação de Bolsonaro já trouxe uma reviravolta para o país desde ontem. O seu afastamento temporário pode colocar em suspensão tantas investigações que correm contra o governo e assim o capitão tende a ganhar tempo. A parcimônia da população e do noticiário para com um presidente enfermo é mais uma dessas histórias que Bolsonaro conhece bem e usa a seu favor. Que ele se recupere em definitivo e saia logo do hospital. Aqui fora tem muita gente querendo saber sobre as negociações envolvendo vacinas superfaturadas e como será o dia seguinte ao seu governo.




RELACIONADOS