Max Dias
Historiador, jornalista, professor do IFES Campus Linhares e Doutor em História

A falta que um quartel lhes faz


Publicado por: Max Dias Em: Política No dia: 8 de julho de 2021


Ontem a CPI da Pandemia tentou demonstrar força perante a opinião pública e mandar um recado aos demais depoentes. Pelo excesso de informações inconsistentes (tentando, obviamente, esconder o que sabe) Roberto Ferreira Dias recebeu voz de prisão em plena sessão. Foi uma vitória para a CPI, todavia abriu um perigoso precedente para os momentos seguintes, inclusive porque novos depoimentos de protagonistas nessa história devem ocorrer e não sabemos qual o desfecho das oitivas de Ricardo Barros (líder do governo na Câmara) e Eduardo Pazuello (ex-ministro da Saúde). Por certo, deve imperar o “direito de se manter calado”.

Parece-nos que Roberto Ferreira Dias (ex-diretor do Ministério da Saúde) serviu como bode expiatório, dada a recorrência de depoimentos fantasiosos desde o início do trabalho da CPI. Após cinco horas preso, pagou uma fiança em torno de 1 mil reais e foi para casa. Porém, suas lacunas, bem como as demais, deixadas por outros depoentes, parecem tentar confundir o trabalho dos senadores. É uma estratégia que faz cansar e a procrastinação trabalha em prol daqueles que são investigados, já que há uma estafa da opinião pública ao ver uma novela sem fim. Caso os trabalhos girem em círculos, os meios de comunicação não tendem a repercutir, com tamanha cobertura, o cotidiano da CPI. Bolsonaro aposta nisso, claramente. As ruas, em levante, apostam no contrário.

O enredo dessa história precisava de um desfecho e o primeiro clímax foi alcançado no episódio de ontem com a prisão de Dias. No entanto, o suspense permaneceu. No início da noite o Ministério da Defesa soltou uma nota criticando supostos ataques do presidente da CPI, Omar Aziz (PSD-AM), às instituições militares. Na verdade, houve ali um pretexto para mandar um recado à CPI: não investiguem os bolsos das fardas! Afinal, quem procura, acha. Assim, a audiência segue para a próxima semana.

Importante perceber que esse bilhetinho das Forças Armadas teve o intuito de intimidar, pois a fala do senador Aziz acerca dos maus militares não deveria servir enquanto carapuça para toda a instituição. Na prática, um governo infestado de militares de alta patente busca, com esse gesto, interferir no andamento das investigações e salvaguardar Bolsonaro (e há quem creia na tese de que os generais estão abandonando o barco…). A sociedade não deveria se calar ante a essa perigosa nota oficial. Ela é um recado transparente: as Forças Armadas agirão, caso, ao final dessa novela, o vilão seja condenado e impedido! Faz tempo que o quartel não é mais a casa definitiva dos militares, todavia, nunca o país necessitou tanto de meio-fio em avenida ou missão de paz em Marte para que a República seja resguardada.




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