Max Dias
Historiador, jornalista, professor do IFES Campus Linhares e Doutor em História

O circo ou a inquisição?


Publicado por: Max Dias Em: Política No dia: 23 de dezembro de 2020


Objetivamente, a eleição da Câmara é mais uma etapa rumo à corrida presidencial de 2022. No Brasil, uma eleição inaugura a outra e, no caso da presidência da Câmara Federal, ela é o termômetro para a consecução da governabilidade. Por mais que Rodrigo Maia (DEM) ataque o candidato governista Arthur Lira (PP) alcunhando-o de marionete de Jair Bolsonaro, por outro lado, Lira diz que Maia já foi cúmplice do execrado Michel Temer (MDB), o ex-presidente da República que, recentemente, assumiu seu papel de traidor de Dilma Rousseff (PT). Chamar o outro de “dependente” é uma ofensa grave para um futuro presidente da Câmara e isso faz perder votos. Como se vê, não tem santo em nenhum canto daquela sala. Somente um, pendurado na parede, observando de longe a laicidade do estado brasileiro.

Por mais que Lira defenda o seu papel de aliado de Bolsonaro, na mesma medida em que prega a independência dos poderes, Maia (que não pode mais se reeleger) já esteve neste papel de unha e carne com Temer fazendo avançar as pautas governistas, no entanto, se define como independente também. No jogo de cena atual, o Rodrigo Maia liberal, defensor do “teto de gastos” e do estado mínimo, colocou em pauta dois projetos que oneram os cofres públicos acima dos 35 bilhões em cerca de dez anos. Seu intuito? Colocar Jair Bolsonaro em saias muito justas, afinal o presidente anda dizendo que o investimento em pautas sociais só não cresce por conta do homem que lidera a Câmara. Na prática, é nessa hora que a gente vê o hábito fazendo o monge.

De algum modo, a decisão tomada pela bancada do PT de apoiar o bloco de Rodrigo Maia – que deverá escolher nomes como Baleia Rossi (MDB) ou Aguinaldo Ribeiro (PP) – torna o jogo extremamente favorável à oposição. Juntando alhos e bugalhos, 11 partidos e cerca de 281 deputados, esse grupo contra Arthur Lira e Jair Bolsonaro tem boa margem para a vitória, porém já nasce derrotado quando o assunto é 2022. É muito mais fácil ajuntar os diferentes quando nenhum deles está em condições plenas de apitar o jogo e, na prática, Rodrigo Maia seguiria arbitrando a Casa, dificultando a adequação de pautas tão caras ao PT e outras ao DEM num ensaio para a famosa frente única de 2022.

Para os deputados, parte dos problemas da Câmara sempre se resolveu com uma boa dose de cargos na mesa diretora e a possibilidade de alocar os muitos apaniguados. Dessa vez o cálculo é diferente. A síndrome de Torquemada que acomete o instável Bolsonaro pode lançar fogo sobre a Câmara de Arthur Lira, fazendo avançar as temidas pautas conservadoras, voltadas aos costumes, tão caras ao seu eleitorado radical e fiel. Se aos olhos do único glorificado daquela Casa nenhum dos 513 são santos, 281 parecem preferir o circo à inquisição. Melhor assim.




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