Max Dias
Historiador, jornalista, professor do IFES Campus Linhares e Doutor em História

Quem paga a banda escolhe a música


Publicado por: Max Dias Em: Política No dia: 30 de novembro de 2020


Há uma sensação geral nos comentaristas da grande mídia que a centro-direita ganhou espaço nessa eleição municipal em razão da sua tendência à moderação e assim, estaria o povo brasileiro propenso a deixar as polarizações de lado e seguir ordenadamente rumo a um país cuja liberdade econômica e os investimentos sociais andam de mãos dadas como petistas e bolsonaristas em plena praça Jerônimo Monteiro.

Essa análise me parece um tanto afobada, pois, os elementos que compõem uma eleição municipal são diversos, da ordem da micropolítica. Se é possível, por exemplo, vaticinar que DEM, PSD e PP saíram maiores do que entraram e, do mesmo modo, afirmar que o PT praticamente retornou à década de 1980 (por mais que Gleisi Hoffmann negue), não é coerente afirmar, ainda, que X ou Y está a um passo de conquistar à presidência. Há organicidade suficiente no PT para enxergar a sua derrota, todavia há pulverização em excesso no centrão para cismar com a sua vitória.

Pela tradição brasileira, desde o advento da reeleição, todos os presidentes conseguiram continuar no cargo para um segundo mandato. Mantido esse retrospecto e, dadas as pesquisas deste semestre, Bolsonaro estaria desde já no segundo turno. Resta, logicamente, uma vaga. Segundo o noticiário político, essa posição seria ocupada por uma candidatura de amplitude e que contenha a centro-direita, o centrão e a centro-esquerda, “num grande acordo nacional”. Some isso tudo e ainda falta combinar com os russos. O racha quase intransponível para a escolha de um nome que simbolize essa unidade precisa superar as vaidades das personalidades, as desigualdades eleitorais regionais e as cláusulas de barreira. Essa matemática é difícil até para o Oswald de Souza.

Ademais, a vitória definitiva do atual presidente carece de um bom desempenho econômico e aglutinação político-partidária. O Bolsonaro 2022 não poderá ser o de 2018 porque já não o é. Seu governo tem sido loteado dia após dia e até os asseclas mais radicais defendem o “troca-troca” em favor da governabilidade. A conta a ser paga para o centrão só aumenta. A partir de 2021 o tanto de prefeito que vai chegar em Brasília com o pires na mão joga a favor do governo, caso ele se disponha a atender demandas e lacrar o “posto Ipiranga”. Essa engrenagem não funciona com uma peça apenas e ninguém afirma com propriedade quem faz o giro sobre quem. Certo é que DEM, PSD e PP vão ampliar sua incidência sobre o Jair e vice-versa. Poderão chegar em 2022 mais próximos que hoje ou mais distantes que ontem. Vai depender da música, da banda e, por fim, quem paga a conta.




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