
Max Dias
Historiador, jornalista, professor do IFES Campus Linhares e Doutor em História
Publicado por: Max Dias Em: Colunistas No dia: 7 de outubro de 2020
No último final de semana me peguei vendo um documentário que há tempos não revisitava: “O que Bererico vai pensar?”, dirigido por Diego Scarparo. A trama que dividiu uma comunidade de imigrantes italianos no interior de Cachoeiro de Itapemirim, minha terra natal, contém um retrato da história do Brasil; um instantâneo que nos fala muito do presente porque segue falando do nosso passado, por vezes ainda recalcado. O historiador Enzo Traverso nos diz que “o ‘acontecido’ é em larga medida configurado pelo presente, visto ser a memória a ‘estabelecer’ os fatos”.
Já se passaram quase 10 anos desde que essa obra audiovisual foi lançada, todavia as falas dos muitos idosos que reviravam as suas memórias ali, na verdade, ecoaram para mim, hoje, um discurso sutil: “chamava nós de comunista e ficava todo mundo de mal”, disse a entrevistada Antonia Perim.
Para Hygino Dardengo, outro participante do documentário, “o que me encanta é porque a primeira palavra é Deus”. “Deus, Pátria e Família” parece invenção original da mente de Jair Bolsonaro, mas não é. Apesar do atual presidente da República ter buscado nesses termos a inspiração para o seu “Brasil acima de tudo, Deus acima de todos” essa tríade ficou consagrada na história do Brasil a partir de sete de outubro de 1932. Nesse dia a Ação Integralista Brasileira (AIB) lançou um manifesto político em São Paulo sob a liderança de Plínio Salgado, uma espécie de führer tupiniquim.
Além de defenderem um nacionalismo excessivo, as palavras integralistas cultivavam o conservadorismo enquanto atacavam quaisquer práticas assemelhadas ao socialismo. Salgado importou tais ideias da Itália (quando lá esteve em contato com a ideologia fascista e com Mussolini), porém as mesclou conforme tradições próprias brasileiras. A estrutura rígida e hierárquica da organização continha elementos militaristas, bem como os seus símbolos e lemas sintetizavam bem as bases da religiosidade majoritária do país. O sigma (Σ) guardava tanto a ideia de unidade quanto a perspectiva da soma. Os que não somavam, dividiam. Logo deveriam ser eliminados.
Se o Integralismo enquanto organização não reúne tantas bases sociais assim atualmente, o seu ideário segue sendo cultivado por Bolsonaro e seus militantes. A sua cruzada contra os supostos inimigos da nação há de gerar mais uma fratura dessas que a sociedade brasileira e os seus políticos não tem se dedicado a curar. É o que acontece até hoje em Burarama. Segundo o professor Pedro Fagundes, aquela comunidade “nunca se recuperou do trauma que o movimento integralista causou”.


