Max Dias
Historiador, jornalista, professor do IFES Campus Linhares e Doutor em História

(Des)inventando datas e heróis nacionais

Se a história é ciência humana capaz de desestabilizar dogmas, a memória, muitas vezes, é experiência individual e social recheada de turbulências e nelas há sempre um ambiente propício para que se consolide uma perigosa mistificação.

Publicado por: Max Dias Em: Colunistas No dia: 7 de setembro de 2020


A busca por unidade na construção de datas e heróis nacionais não é uma novidade. No Brasil dos séculos passados, muitos foram os governantes que tentaram estabelecer mitos fundadores capazes de garantir longevidade ao seu gesto. De D. Pedro I à Getúlio Vargas, do dia da “Independência” ao dia do “Trabalho”, nossa nação está repleta dessas pretensas imagens retumbantes, cuja essência histórica dizem menos que o presidente quando perguntado sobre os 89 mil reais depositados por Queiroz na conta bancária da primeira dama.

Apesar da constante referência ao povo brasileiro na atual peça de propaganda estrelada pelo ex-ator global e atual secretário nacional de cultura Mario Frias, o governo Bolsonaro tenta, com essa estratégia, reposicionar determinados eventos e personagens do país a fim de inscrever-se, ele mesmo, num panteão. Se a história é ciência humana capaz de desestabilizar dogmas, a memória, muitas vezes, é experiência individual e social recheada de turbulências e nelas há sempre um ambiente propício para que se consolide uma perigosa mistificação.

No dia 31 de agosto de 2016, quando Dilma foi retirada do poder, o então deputado federal Jair Bolsonaro celebrou a memória de um dos seus “heróis” nacionais, o torturador condenado pela justiça, coronel Carlos Brilhante Ustra. Para o atual presidente, Ustra cumpriu com maestria sua carreira; defendeu a pátria, seus valores e famílias do inimigo comunista. O gesto em favor do coronel, que deveria lhe valer uma boa temporada na cadeia, foi tido como um evento qualquer, efeito da liberdade de expressão em vigor, demonstrativo de que as instituições estão funcionando e de que a Anistia de 1979 pacificou o país. Ledo engano.

Outra figura, dessas que o presidente rememora sempre quando pode, é Luís Alves de Lima e Silva, conhecido como Duque de Caxias (alto título recebido pelos serviços prestados ao Império do Brasil). O patrono do Exército brasileiro carrega em sua biografia centenas de mortes covardes e violentas contra o seu próprio povo. Suas vítimas prediletas eram os negros, indígenas e os demais pobres. Membro do Partido Conservador, suas ideias políticas continuam a circular por aí entre as hostes bolsonaristas como fagulha em mato seco.

O resgate de determinadas datas comemorativas e alguns heróis nacionais sob o prisma da unificação nacional é, no fundo, uma tentativa de preencher o “tempo homogêneo e vazio” por meio de fatos amorfos, sendo que, na verdade a história se constrói num tempo “saturado de agoras”, conforme nos ensina Walter Benjamin. E é literalmente desse passado cheio de presente que Bolsonaro insiste em fugir.




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